sábado, 2 de janeiro de 2016

sol se pondo

ninguém está triste por eu ir embora,
nem mesmo eu;
mas deveria haver um menestrel
ou ao menos um copo de vinho.

isso incomoda mais aos jovens, eu acho:
uma morte lenta sem violência.
ainda assim isso faz qualquer homem sonhar;
você deseja um velho veleiro,
a vela branca incrustada de sal
e o mar embalando sugestões de imortalidade.

mar no nariz
mar nos cabelos
mar na medula, nos olhos
e sim, no peito.
sentiremos falta
do amor de uma mulher ou música ou comida
ou o corcovear do grande cavalo louco e
musculoso,
pisoteando torrões de terra e destinos
para o alto e para bem longe
em um só momento de sol poente?

mas agora é a minha vez
e não há majestade nisso
pois não houve majestade
antes disso
e cada um de nós, como vermes mordidos
nas maçãs,
não merece moratória.

a morte penetra em minha boca
e rasteja ao longo dos meus dentes
e eu me pergunto se estou com medo deste
morrer sem voz e sem lamentos que é
igual ao murchar de uma rosa?


Charles Bukowski

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